O as built é o registro de como a obra ficou de fato, com todas as alterações em relação ao projeto executivo. A família de normas que o setor cita como reguladora, a NBR 14645, trata de levantamento topográfico e cadastral, e a ABNT cancelou duas das suas três partes em 2022. Nenhuma delas define o conteúdo do as built das instalações. Quem define isso é o contrato.
A obra entregou em março. Em setembro aparece uma infiltração no quarto pavimento e alguém precisa saber por onde passa o ramal de água quente.
O projeto executivo mostra um traçado. A parede mostra outro, porque a prumada desviou na execução e ninguém atualizou a prancha.
É para isso que serve o as built, e é por isso que ele costuma aparecer tarde demais na conversa.
O que é o as built
As built significa “como construído”. É o conjunto de desenhos e documentos que registra a edificação como ela foi executada, incorporando as mudanças feitas durante a obra.
Ele existe porque projeto e execução divergem. Uma interferência entre instalação e estrutura obriga a mudar um traçado. Um erro de cota muda uma altura. Uma troca de fornecedor muda a bitola. Alguém toma cada uma dessas decisões no canteiro, e cada uma afasta o que foi construído do que está desenhado.
Na prática, ele aparece em quatro momentos: na entrega da obra ao contratante, na manutenção predial, numa reforma futura e numa discussão sobre defeito.
A norma que todo mundo cita, e o que ela realmente diz
Procure “norma do as built” e você encontra a ABNT NBR 14645, descrita como a norma que regula o assunto. Vale ler o nome completo das três partes dela antes de aceitar essa descrição.
| PARTE | DO QUE ELA TRATA | SITUAÇÃO |
|---|---|---|
| 14645-1 | Levantamento planialtimétrico e cadastral de imóvel urbanizado com área até 25.000 m² | Vigente, confirmada em 03/2024 |
| 14645-2 | Levantamento planimétrico para registro público, para retificação de imóvel urbano | Cancelada com substituição em 06/2022 |
| 14645-3 | Locação topográfica e controle dimensional da obra | Cancelada com substituição em 09/2022 |
Leia os títulos de novo. Levantamento planialtimétrico, levantamento planimétrico para registro público, locação topográfica. A família inteira trata de topografia e cadastro de imóvel.
Nenhuma das três diz o que precisa constar no as built das instalações elétricas, hidráulicas ou de climatização, que é justamente o que a maioria das pessoas quer dizer quando pede um as built.
E a parte que chegava mais perto foi cancelada
A parte 3 é a única que mencionava o mecanismo certo. O escopo dela cobria a locação e o controle dimensional da obra, e também o registro das alterações feitas durante a construção e os procedimentos para chegar ao projeto as built a partir do projeto executivo.
A ABNT cancelou essa parte, com substituição, em setembro de 2022, e a parte 2 em junho do mesmo ano.
Sobrou a parte 1, que trata do levantamento do terreno.
Então quem define o conteúdo do seu as built
O contrato.
Sem norma que estabeleça escopo mínimo para o as built de instalações, o que vale é o que está escrito na cláusula. E é por isso que o as built vira briga de entrega com tanta frequência: o contratante esperava pranchas por disciplina com memorial e o contratado entregou a planta de arquitetura com três anotações a lápis digitalizadas.
Três situações concentram a exigência:
- Obra pública. O edital costuma exigir as built como condição de recebimento definitivo, com escopo descrito
- Contrato privado de grande porte. Industrial, hospitalar e retail normalmente trazem a exigência, porque a manutenção depende dela
- Incorporação. A documentação da construção alimenta o registro do imóvel e o manual do proprietário
Antes de assinar, defina três coisas na cláusula: quais disciplinas, em que formato de arquivo e com que nível de detalhe. Sem isso, a entrega é discutível por definição, o que já tratamos em gestão de contratos na construção civil.
O as built se acumula durante a obra ou custa caro no fim
Aqui está a parte que decide o custo.
Existe uma forma cara de fazer as built: esperar a obra acabar e contratar um levantamento. Escaneamento a laser, topografia, medição em campo. Funciona para geometria, fachada, layout e tudo que continua visível.
E existe o que o levantamento no fim não alcança. Nenhum equipamento enxerga um ramal embutido em alvenaria revestida, uma tubulação dentro da laje ou um eletroduto sob o contrapiso. Depois que cobriu, a única fonte sobre o que está lá dentro é o registro feito no dia.
A parte 3 da norma, mesmo cancelada, apontava o mecanismo correto: chegar ao as built a partir do projeto executivo pelo registro das alterações feitas durante a construção. O mecanismo não deixou de ser certo porque a norma saiu de vigência. Ele só deixou de estar escrito em algum lugar.
O que registrar enquanto a obra anda
Cinco coisas, e todas cabem no que a equipe já preenche.
Toda alteração de traçado de instalação, antes de cobrir. Foto com referência de medida a partir de dois pontos fixos, mais a data. Uma parede sem revestimento é um documento que vai deixar de existir.
Toda troca de especificação. Bitola, material, fabricante. Quem autorizou e quando.
Toda divergência entre projetos de disciplinas diferentes e a solução adotada. Interferência resolvida no canteiro é a origem mais comum de divergência no as built.
A revisão do projeto que originou a mudança. Número da revisão e data, para o desenho final ter rastro.
A data em que a equipe fechou cada frente. Ela marca o último momento em que alguém pôde conferir aquele trecho.
Nada disso exige software. Exige que o registro aconteça no dia, porque é o único dia em que a informação está disponível.
As built e BIM resolvem problemas diferentes
Um modelo em BIM atualizado com o que foi executado entrega as built com muito mais qualidade que uma prancha em 2D, porque carrega atributo e não só geometria.
A condição é a mesma dos dois lados. Alguém com essa responsabilidade atribuída precisa atualizar o modelo durante a obra. Modelo congelado na versão de projeto vira as built errado com aparência de preciso, que é pior que planta antiga, porque gera confiança indevida. O que a lei já exige em BIM e o que ele não resolve está no guia sobre BIM na construção civil.
Onde isso encosta na gestão da obra
Começando pelo limite: o KOPER não desenha as built, não gera prancha e não substitui o projetista nem o levantamento em campo. Esse trabalho continua sendo técnico e de quem assina.
O que sobra do lado da gestão é a matéria-prima. O as built se monta a partir do que a equipe registrou enquanto a frente estava aberta, e esse registro é o diário de obra, com a ocorrência do dia, a data e a frente a que ela pertence.
No módulo de Engenharia, o diário fica na mesma obra que o planejamento e o acompanhamento, então a pergunta sobre o que mudou na prumada entre maio e julho tem resposta sem depender da memória de quem estava lá.
Perguntas frequentes sobre as built
O as built é obrigatório?
Não existe norma técnica que estabeleça o as built das instalações como obrigatório para toda obra, nem que defina o conteúdo mínimo dele. A obrigatoriedade vem do contrato. Em obra pública, o edital costuma exigir o as built como condição de recebimento definitivo. Em contrato privado, vale o que a cláusula escreveu, e é por isso que escopo, disciplinas e formato precisam estar definidos antes da assinatura.
Qual norma regula o as built?
A família citada como referência é a ABNT NBR 14645, e vale conhecer o alcance real dela. A parte 1 trata de levantamento planialtimétrico e cadastral de imóvel urbanizado com área até 25.000 m² e está vigente, com confirmação em março de 2024. A ABNT cancelou a parte 2, sobre levantamento planimétrico para registro público, com substituição, em junho de 2022, e a parte 3, sobre locação topográfica e controle dimensional da obra, em setembro de 2022. As três tratam de topografia e cadastro, e não do conteúdo do as built de instalações.
Qual a diferença entre as built e projeto executivo?
O projeto executivo descreve o que se pretende construir e é anterior à execução. O as built descreve o que foi efetivamente construído e só pode ser concluído depois dela. O caminho entre os dois é o registro das alterações feitas durante a obra, que era exatamente o procedimento que a parte 3 da NBR 14645 descrevia antes do cancelamento. Na prática, o as built é o projeto executivo somado a tudo que mudou no canteiro.
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Este artigo tem finalidade informativa e reproduz a situação das normas citadas na data de publicação, conferida no catálogo técnico da Target Normas. Ele não substitui a orientação do profissional habilitado responsável pelo seu projeto.


